10 anos do Projeto IntegraAção
- Projeto Integra-Ação

- 14 de mar.
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Março de 2026 é um marco afetivo, ético e histórico. O Projeto IntegraAção completa 10 anos — uma década inteira de encontros, escuta, cuidado e presença real na vida de mais de 2.700 pessoas que passaram por nós em terapia.
Foram também centenas de pessoas tocadas pelas oficinas de culinária, panificação, balé, pilates, música, cuidadores, luto, artesanato. Somam-se a elas os atendimentos em saúde — psiquiatria, nutrição, fisioterapia, podiatria — e tantas famílias que receberam cestas básicas, especialmente na pandemia, além do apoio à distribuição de marmitas à população em situação de rua.
Quando, lá atrás, sonhamos este projeto, talvez não fôssemos capazes de antecipar a profundidade do caminho. Hoje, ao olhar para trás, o que nos atravessa não são apenas números: são histórias. Histórias de coragem, de fragilidade, de transformação; histórias nossas e dos outros, que se misturaram no espaço vivo que construímos juntos.
Ao longo desses dez anos, enfrentamos desafios que nos ensinaram a sustentar o essencial: a presença. Passamos por momentos de incerteza, por aprendizagens que nos modificaram, por experiências que nos pediram criatividade, humildade e confiança. Também vivemos momentos de extraordinária potência humana — daqueles que lembram por que decidimos fazer esse trabalho.
O IntegraAção nunca foi apenas um conjunto de atendimentos. Foi — e segue sendo — um gesto coletivo de ética e sensibilidade. Um grupo de pessoas que, sem se tornar uma instituição formal, escolheu doar um pouco de seu tempo, de sua escuta e de sua integridade para cuidar do bem-estar individual e coletivo.
Celebrar estes dez anos é honrar cada pessoa que manteve este projeto vivo: supervisores, estudantes, terapeutas, parceiros, colaboradores, participantes. Gente que acreditou que uma escuta preparada, respeitosa e comprometida pode, sim, transformar trajetórias — inclusive as nossas.
Ao completar uma década, reafirmamos nosso compromisso: continuar oferecendo um lugar onde acolher é um ato político, integrar é um ato humano, e transformar é uma possibilidade real.
Que esta comemoração seja, antes de tudo, um gesto de gratidão — pela história que construímos e pela história que ainda construiremos.
E que os próximos anos venham marcados pela mesma coragem, pela mesma dedicação e pela mesma delicadeza que sustentaram esta primeira década do Projeto IntegraAção.
História e Caminhos do Projeto IntegraAção
O Projeto IntegraAção nasceu no início de 2016, antes mesmo de sabermos explicar exatamente o que estávamos criando. Surgiu com pedidos simples — enfermeiras procurando espaço para praticar, psicólogos querendo atender, alguém lembrando que o conhecimento só vive quando é partilhado — e de um padre que acolheu essas demandas.
Começou a tomar corpo como uma solução pedagógica para alunos do CEPSI, especialmente aqueles sem formação em Psicologia, rapidamente encontrou uma realidade que nos convocava: uma comunidade viva, com urgências emocionais e sociais que não cabiam apenas na sala de aula. A pergunta que se impôs foi: “por que não unir teoria e vida, saber e território, formação e cuidado?”
As ideias de Ryad Simon iluminaram o caminho: uma formação que não dialoga com o Brasil real — onde a imensa maioria não pode arcar com psicoterapia prolongada — não cumpre sua missão. Inspirados por essa visão, buscamos construir um projeto que integrasse teoria psicanalítica, práticas breves, olhar social e compreensão humana mais ampla. Procuramos supervisão experiente, construímos redes, e o Projeto ganhou forma.
Desde o início, tivemos o cuidado de preservar o espaço clínico dentro de uma instituição religiosa, sem confundir psicanálise com pastoral. Explicamos que, embora houvesse intenção social, não se tratava de assistencialismo. O compromisso era outro: “oferecer um espaço de consciência, singularidade e transformação”, sustentado pelos fundamentos da prática psicanalítica.
Atendendo em um território marcado por vínculos fortes, enfrentamos desafios inéditos: pacientes que se conheciam, segredos que circulavam, a ausência de anonimato. Foi necessário repensar limites, setting, e principalmente preconceitos — inclusive o da ideia de “população carente”. Cada sujeito trazia sofrimento singular, tão complexo quanto em qualquer outro lugar.
Com o tempo, vimos a necessidade de ampliar cuidados: psiquiatras, nutricionistas, fisioterapeutas e outros parceiros se somaram ao trabalho. Ao mesmo tempo, percebemos que o que sustentava o Projeto não era apenas técnica, mas o cuidado com o próprio grupo. Supervisões tornaram-se também um espaço de proteção contra fantasias, disputas e idealizações que atravessam qualquer coletivo.
Os motivos que trazem terapeutas ao Projeto são múltiplos — desejo de contribuir, busca de experiência, necessidade de pacientes, vontade de aprender. E isso é humano. A psicanálise nos lembra que ninguém está acima do inconsciente, e que grupos são atravessados tanto pela pulsão de vida quanto pela agressividade.
Nosso desafio, ao longo dos anos, foi justamente esse: “manter viva a ética, sustentar singularidades, enfrentar forças grupais internas e externas e, ainda assim, proteger o propósito maior” — oferecer cuidado acessível, escuta qualificada e oportunidades reais de desenvolvimento humano.
É dessa mistura de coragem, fragilidade, carinho e invenção que o Projeto IntegraAção foi feito — e continua sendo feito, dia após dia.

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